O romance histórico de Eliane Alves Cruz: necropoder, violência, colonialidade do corpo e doenças infecciosas

Palavras-chave: romance histórico, necropoder, violência, colonialidade do corpo, doenças infecciosas

Resumo

Neste artigo, pretendemos analisar as representações do necropoder, da violência, da colonialidade do corpo e das doenças infecciosas (como a cólera, a febre amarela, a varíola e o maculo), recorrentes no processo da escravização dos negros. Investigaremos tais pontos temáticos a partir dos romances históricos: Água de barrela (2018), Crime do cais do Valongo (2018a) e Nada digo de ti, que em ti não Veja (2020) da escritora Eliana Alves Cruz. Sendo assim, partindo das discussões sobre as variadas formas de colonialidade, violência e barbárie evidenciadas em teóricos como Agamben (2002), Bento (2018), Césaire (2020), Dalcastagnè (2008), Lugones (2019), entre outros, observaremos os modos pelos quais o capitalismo, a colonização europeia e a escravidão moderna, utilizando-se da necropolítica, encaminham os corpos subalternizados à morte através da normatização e da regulação, ao negar-lhes condições básicas de existência, como alimentação, higiene, trabalho digno, atenção à saúde e descanso. Ao fim da pesquisa, constatamos que os três romances problematizam e denunciam a ferida colonial que a escravidão imprimiu aos negros, colocando-os em situações desumanas tanto de deslocamento, quanto nos ambientes de exploração.

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Publicado
2022-09-04
Como Citar
CONCEIÇÃO, F. W.; PAULINO, R. O romance histórico de Eliane Alves Cruz: necropoder, violência, colonialidade do corpo e doenças infecciosas. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 37, p. 51-65, 4 set. 2022.
Seção
Dossiê