Histórias de violência, corpos na violência: O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane

Palavras-chave: violência, corpos negros, colonialismo, literatura afro-feminina contemporânea, Paulina Chiziane

Resumo

Dentro da constelação literária dos últimos anos, um lugar de visibilidade especial cabe ao romance O alegre canto da perdiz (2016), de autoria da moçambicana Paulina Chiziane. Esta obra articulada e intensa encena a História moçambicana desde a colonização até à época da independência – e fá-lo contando as vivências atribuladas das quatro gerações que compõem uma família moçambicana. Este artigo se debruça sobre a representação da violência na obra, estudando tanto as violências de género como as de raça. Analisamos aqui como e em que medida a prática constante da violência (física, psicológica e epistémica) durante o regime colonial afeta o processo de busca e de construção identitária do ponto de vista nacional como também individual, tanto para os homens como para as mulheres. Além disso, este trabalho reflete sobre como para estas últimas as brutalidades sistemáticas da dominação portuguesa acabam por desestabilizar as categorias ontológicas quer da gestão da própria sexualidade, quer da maternidade.

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Publicado
2022-09-04
Como Citar
DE MATTIA, M. C. Histórias de violência, corpos na violência: O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 37, p. 66-86, 4 set. 2022.
Seção
Dossiê