Formas da Teoria nas literaturas de língua portuguesa

Apresentação

Os estudos literários são recorrentemente atravessados por sucessivos debates sobre o lugar da teoria, da filologia, da interpretação e da leitura. Depois de ter ocupado posição central no debate crítico da segunda metade do século XX, a teoria literária foi muitas vezes declarada esgotada, institucionalizada ou substituída por novos paradigmas metodológicos. No entanto, cada anúncio do seu declínio parece reabrir a sua necessidade, deslocando-a para outros campos: a leitura, a edição, o comentário, o arquivo, a tradução, a crítica textual, a história literária, as humanidades digitais e as práticas de ensino. Em Le Démon de la théorie, Antoine Compagnon interroga o movimento paradoxal pelo qual a teoria, mesmo quando contestada ou aparentemente superada, continua a regressar como problema crítico. Paul de Man, por sua vez, situava, em The Resistance to Theory (1986), o interesse teórico da teoria literária na dificuldade, ou mesmo impossibilidade, da sua própria definição e fazia da resistência à teoria uma tensão constitutiva do pensamento crítico.

Este dossiê parte dessa situação paradoxal, a teoria parece perder centralidade precisamente quando se torna inevitável voltar a pensar o que fazemos quando lemos. A pergunta central será de que modo a Teoria reaparece em práticas concretas de leitura, descrição, comentário, edição, arquivo, interpretação, tradução, ensino, anotação e análise textual. O título “Formas da Teoria nas Literaturas de Língua Portuguesa” propõe pensar os modos pelos quais a teoria se inscreve e se reconfigura no estudo das literaturas e culturas de língua portuguesa. A teoria interrogou os pressupostos da interpretação; a filologia insistiu na materialidade, historicidade e transmissão dos textos; a leitura tornou visíveis os gestos, limites e possibilidades das práticas críticas. O dossiê procura, assim, explorar a filologia como pensamento da linguagem, a teoria como reflexão sobre os gestos de leitura e a leitura como prática situada, material, histórica e formal. A partir dessas questões, o dossiê acolhe propostas que examinem a atualidade da teoria e da leitura nas literaturas e culturas de língua portuguesa, entendida em sentido amplo: modelos interpretativos, autoridade crítica, transmissão textual, edição, cânone, ensino da literatura, materialidade do livro, arquivo, close e distant reading, mediação humana, algoritmos, modelos computacionais e inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o dossiê pretende abrir espaço para investigações que pensem a filologia não como simples retorno conservador ao texto, mas como prática crítica capaz de articular materialidade, historicidade, forma, linguagem e interpretação. Em “The Return to Philology”, Edward Said definia a verdadeira leitura filológica como uma leitura ativa, voltada para o processo da linguagem e para aquilo que, nos textos, permanece oculto, incompleto, mascarado ou distorcido. A filologia, nesse sentido, constitui uma forma de atenção às palavras como parte formativa da realidade histórica e literária. Nesse horizonte, pode ser entendida como uma das formas contemporâneas de reinscrição da teoria, uma teoria menos programática, mas inscrita nos gestos concretos da leitura, da edição, da anotação, da preservação, da tradução e da construção de arquivos. 

Eixos temáticos possíveis

Serão bem-vindos artigos que abordem, entre outros, os seguintes temas:

  1. Teoria depois da teoria: Reflexões sobre a institucionalização, dispersão, transformação ou sobrevivência da teoria literária. Trabalhos sobre Compagnon, de Man, Culler, Derrida, Barthes, Eagleton, Rancière, Said, Spivak, Butler, Sedgwick, Jameson, entre outros, em diálogo com as literaturas e culturas de língua portuguesa.
  2. Filologia, crítica textual e leitura: Estudos sobre filologia, crítica textual, edição crítica, edição genética, edição digital, história do texto, variantes, testemunhos, arquivos, manuscritos, impressos, paratextos e práticas de comentário.
  3. Retornos à filologia: Discussões sobre o chamado “retorno à filologia”, a partir de autores como Leo Spitzer, Erich Auerbach, Edward Said, Paul de Man, Jonathan Culler e Werner Hamacher. Serão particularmente relevantes propostas que pensem a filologia como forma de leitura e não apenas como técnica de estabelecimento textual.
  4. Modos de leitura e interpretação: Trabalhos sobre hermenêutica, close reading, distant reading, pós-crítica, crítica da suspeita, leitura sintomática, leitura formal, leitura material, leitura ética, leitura histórica e leitura computacional.
  5. Literatura, ensino e humanidades: Artigos sobre o lugar da literatura na universidade contemporânea, os currículos de literatura, a formação de leitores, a função pública das humanidades e os desafios institucionais dos estudos literários.
  6. Arquivo, materialidade e mediação digital: Estudos sobre arquivos literários, bibliotecas digitais, edições eletrónicas, humanidades digitais, anotação semântica, bases de dados, modelos computacionais, inteligência artificial e transformações das práticas de leitura e investigação.
  7. Cânone, língua e comunidade interpretativa: Reflexões sobre o cânone literário em língua portuguesa, a formação de tradições críticas, os usos da lusofonia, a circulação transnacional dos textos, as literaturas pós-coloniais e as comunidades de leitura.
  8. Autoria, texto e livro: Trabalhos sobre autoria, intenção, anonimato, pseudonímia, heteronímia, colaboração, tradução, reescrita, plágio, inteligência artificial, cultura impressa e cultura digital.
  9. Formas literárias da leitura: Análises de obras literárias que tematizem ou formalizem experiências de leitura, linguagem, sujeito, história, império, memória, transmissão textual ou experiência estética.
  10. Literaturas de língua portuguesa e pensamento crítico: Estudos sobre autores, obras e tradições das literaturas portuguesa, brasileira, africanas de língua portuguesa, galega, timorense, macaense e das diásporas, em diálogo com problemas teóricos, filológicos e interpretativos.

Bibliografia

 Compagnon, Antoine. Le Démon de la théorie: littérature et sens commun. Paris: Seuil, 1998.

Culler, Jonathan. Literary Theory: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 1997.

de Man, Paul. The Resistance to Theory. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1986.

Eagleton, Terry. After Theory. London: Allen Lane, 2003.

Hamacher, Werner. “95 Theses on Philology.” Diacritics 39, no. 1 (2009): 25–44.

Hamacher, Werner. Minima Philologica. Translated by Catharine Diehl and Jason Groves. New York: Fordham University Press, 2015.

Knapp, Steven, and Walter Benn Michaels. “Against Theory.” Critical Inquiry 8, no. 4 (1982): 723–742.

Rancière, Jacques. La Parole muette: essai sur les contradictions de la littérature. Paris: Hachette, 1998.

Said, Edward W. “The Return to Philology.” In Humanism and Democratic Criticism, 57–84. New York: Columbia University Press, 2004.

Spitzer, Leo. Linguistics and Literary History: Essays in Stylistics. Princeton: Princeton University Press, 1948.