Resumo
Este artigo investiga de que modo a obra cinematográfica de Sylvio Back instaura uma poética da montagem crítica, na qual literatura e história se entrelaçam como instâncias de reconfiguração simbólica do tempo. Longe de estabelecer filiações diretas, o estudo mobiliza conceitos como o tempo messiânico de Walter Benjamin e a imagem-tempo de Gilles Deleuze, a fim de iluminar os procedimentos estéticos que desestabilizam tanto a linearidade narrativa quanto as convenções da historiografia dominante. A recorrência de figuras históricas marginalizadas, aliada à tessitura de referências literárias, evidencia a construção de uma escrita cinematográfica híbrida, na qual suas películas operam como arquivos do dissenso. Em suma, argumenta-se que, em Back, o cinema não se limita a representar o passado, mas o reinscreve como interrogação, instaurando um regime de temporalidade crítica que desafia as fronteiras entre documento, ficção e memória.
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