Transfusões linguísticas: o percurso plagiotrópico na transcriação das duas cenas finais de Fausto II, por Haroldo de Campos

  • Ana Carolina Lopes Costa Universidade Federal de Rondônia
Palavras-chave: Haroldo de Campos, Goethe, plagiotropia, tradução

Resumo

Este artigo tem por objetivo realizar uma leitura, guiada pelo princípio plagiotrópico, da tradução das duas cenas finais do Fausto II, de Goethe, efetuada por Haroldo de Campos. O termo plagiotropia, oriundo do campo biológico, foi aproveitado pelo crítico, tradutor e poeta paulista para explicar o desenvolvimento da tradição literária, lançando sobre essa uma noção de plasticidade: a força motriz que permite o desenvolvimento e a conjugação das poéticas ao longo do tempo é também transversal (Campos, 2005). Aqui, do mesmo modo, o estudo dessa união de poéticas passa necessariamente pelo conceito haroldiano de transcriação: a tradução como criação e como crítica. Nesta esteira, focalizando a intertextualidade de Goethe, que se utiliza do tom dos coveiros hamletianos na cena “Enterramento”, Campos, pautado pela noção de tradução como crítica, transcriará a cena através do diálogo com João Cabral de Melo Neto. O coro dos lêmures, em português, está imbricado pelos versos de Morte e vida severina intensificando, assim, o processo de ramificação oblíqua. Para efeito de compressão desse gesto tradutório, refletiremos sobre o que chamamos de dicção da pá, a concretude cabralina, objetivando compreender como Haroldo de Campos o aproveita em sua tradução. Em sua prática transluciferina, Campos adota a fissura da forma e do conteúdo para usurpar, pelas frestas do discurso, o trono do texto original.

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Publicado
2021-07-28
Como Citar
LOPES COSTA, A. C. Transfusões linguísticas: o percurso plagiotrópico na transcriação das duas cenas finais de Fausto II, por Haroldo de Campos. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 35, p. 88-100, 28 jul. 2021.
Seção
Artigos