Resumo
A moral social opressiva do século XIX determinava a marginalização de mulheres cujos comportamentos fossem considerados transgressores e ameaçadores da ordem social. Ser marginalizada significava ser apagada da memória da família e sofrer um processo de desapropriação de uma identidade enquanto mulher honrada, para passar a adoptar a caracterização de “mulher perdida”. Neste artigo, procura-se analisar de que forma se interligam culpa, identidade e memória nas figuras femininas de duas obras de autoras oitocentistas: “A Dama das Violetas” de Guiomar Torresão e La loi qui tue de Camille Delaville. Estas obras abordam o problema da calúnia contra mulheres e dos efeitos que esta tinha sobre a reputação feminina, sobretudo nas acusações de adultério. Ambos os romances procuram expôr as injustiças da sociedade oitocentista, na qual as mulheres se encontravam sempre num lugar de subalternidade, sujeitas à dominação masculina.
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