Resumo
Publicado em 2010, o romance Azul-Corvo, de Adriana Lisboa, caracteriza-se por uma estrutura relativamente complexa: à história principal, em que Vanja, uma jovem órfã de mãe, se desloca do Rio de Janeiro para Denver em busca do pai, são intercalados por vários trechos narrativos analépticos. Entre eles, um trata da participação de Fernando, ex-marido de Suzana (a falecida mãe de Vanja), na guerrilha do Araguaia. Embora admitindo que a história principal é sobre Vanja, e concordando com as teses de vários académicos de que o tema do romance é o desenraizamento e a busca de umas modalidades de pertença que vai para além do nacional e territorial, este trabalho centra-se na figura do deuteragonista, Fernando. Baseado na teoria da figuração da personagem (Reis, 2015), na poética do romance histórico (Fernández Prieto, 1998) e da teoria da novel of the recent past (Kingstone, 2017), este trabalho se detém na configuração do deuteragonista para mostrar como a figura do Fernando (entre outras) procede da reelaboração de um hipotexto historiográfico, Operação Araguaia (Morais; Silva, 2011) e, para além disso, como a construção identitária da adolescente Vanja aproveita da transmissão do relato histórico do Fernando.
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