Escrito para a cena barroca: a contextualização histórica na leitura contemporânea de textos dramáticos antigos

Palavras-chave: leiture, teatro, texto, cena

Resumo

O leitor, a partir do seu próprio imaginário, constrói as cenas que lê num texto dramático. Assim, num contato mais imediato com o texto, o leitor organiza as ações da peça a partir de seu próprio referencial imagético. Em textos contemporâneos, especialmente aqueles que dialogam diretamente com as novas formas da cena, com sua hibridização entre as diferentes formas artísticas, é evocada a necessidade de algum conhecimento desta cena, pois o texto dramático é escrito com vistas a ser posto em cena em sua contemporaneidade. O mesmo acontece com o texto dramático antigo, pois também ele dialoga com as formas de representação vigentes. Tal relação é especialmente importante de ser levada em conta quando se está em contato com textos definitivamente escritos com o objetivo de serem representados. A condição de serem escritos para a cena, por sua vez, não exime o autor de tais textos de um compromisso literário, mas agrega ambos sob sua égide. Quando nós, leitores do século XXI, nos deparamos com textos dramáticos em geral, apresentamos uma tendência a lê-los primeiramente a partir do nosso imaginário do que é teatro hoje. Sabemos que nossa imaginação está impregnada do nosso próprio tempo-espaço e apresenta as mais diversas influências, inconscientemente. Entretanto, no que tange ao tratamento de textos muito antigos ou baseados em preceptivas muito distantes das conhecidas pelo leitor, esta relação assimétrica pode prejudicar a apreciação da obra. Uma leitura empenhada de textos, dramáticos ou não, deve considerar seu contexto de produção, seja histórico-cultural, seja cênico-literário. Esta condição da leitura permitirá que o leitor compreenda os meandros do jogo cênico proposto pelo dramaturgo e complementará o caráter imaginativo do ato de ler. Para efeitos de análise, tomaremos por base as peças mitológicas do dramaturgo português setecentista Antônio José da Silva como objeto para o desenvolvimento da discussão que segue.

Referências

Abellan, Joan. El text dramàtic. In: Sala, Jordi (ed.). Deu lliçons sobre teatre: text i representació. Girona: Servei de Publicacions de la Universitat de Girona, 2000. p. 35-43.

Assis, Machado de. Antônio José (1879). Crítica Teatral. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. 1942.

Baltazar, Márcia Cristina. Relações entre o agir, o sentir e o pensar no ato criativo: uma análise bergsoniana. Sala Preta, v. 14, p. 95-107, 2014. Disponível em http://www.revistas.usp.br/salapreta/article/viewFile/84481/91864. Acesso em 02 jan. 2017.

Branco, João de Freitas. O teatro de “O Judeu”. História da música portuguesa. Lisboa: Europa-América. 1959.

Brito, Manuel Carlos. Estudos de História da Música em Portugal. Lisboa: Editorial Estampa. 1989.

Garrett, Almeida. Um auto de Gil Vicente. Lisboa: Replicação. 1996.

Gontijo Rosa, Carlos. Há sátira em Antônio José da Silva? Anuário de Literatura, v. 16, n. 2, p. 101-113, 2011.

Gontijo Rosa, Carlos. Notas sobre os paradigmas para a composição das peças de Antônio José da Silva. Webmosaica — Revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, v. 4, n. 2, p. 39-48, jul.-dez. 2012.

Gouhier, Henri. A essência do teatro. L’Essence du Théâtre. Tradução de Roberto Mallet. Paris: Librarie Plon. 1943. p. 1-7. Disponível em www.grupotempo.com.br/tex_gouhier.html. Acesso em: 15 abr. 2012.

Kopelman, Isa Etel. Questões de texto e cena. Pitágoras, 500, v. 1, p. 62-71, out. 2011.

Montes, José Ares. Bodas y divorcio del teatro hispano-portugués. In: Congresso Luso-Espanhol de Teatro, I. Dramaturgia e Espetáculo: Actas. Coimbra, 23 a 26 de setembro de 1987. Coimbra: Livraria Minerva. 1992.

Oliva, Salvador. Literatura dramàtica i teatre. In: Sala, Jordi (ed.). Deu lliçons sobre teatre: text i representació. Girona: Servei de Publicacions de la Universitat de Girona, p. 11-20. 2000.

Pallottini, Renata. Dramaturgia: a construção da personagem (1989). São Paulo: Perspectiva. 2015.

Rodríguez Cuadros, Evangelina. La técnica del actor español en el Barroco: hipótesis y documentos. Fuenlabrada: Castalia. 1998.

Ruiz Ramón, Francisco. Calderón y la tragedia. Madrid: Alhambra. 1984.

Ruiz Ramon, Francisco. Estudios de teatro español clásico y contemporáneo. Madrid: Fundación Juan March. 1978.

Ruiz Ramón, Francisco. Paradigmas del teatro clásico español. Madrid: Cátedra. 1997.

Sala, Jordi. El teatre com a discurs narratiu de ficció. In: Sala, Jordi (ed.). Deu lliçons sobre teatre: text i representació. Girona: Servei de Publicacions de la Universitat de Girona. 2000. p. 21-34.

Silva, Antônio José da. A critical study and translation of António José da Silva's Cretan Labyrinth: a puppet opera. Tradução e estudo crítico de Juliet Perkins. Lewiston: Edwin Mellen. 2004.

Williams, Raymond. Drama em cena. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Cosac Naify. 2010.

Publicado
2019-08-28
Como Citar
ROSA, C. Escrito para a cena barroca: a contextualização histórica na leitura contemporânea de textos dramáticos antigos. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 30, p. 43-55, 28 ago. 2019.