Chamada para publicação ed. 42 (2/2024) - DOSSIÊ: Desejo-repulsa, atração-dissidência; Narrativas atuais lusófonas.

Corpo. Matéria de composição-decomposição, de estar, de ser, de ocupar, de inteirar, agir, interagir e de integrar-se no e com o mundo. Ser, todo início e todo fim. Tudo começa e termina nele. O corpo. O que significa um corpo “belo”? O que constitui um corpo “feio”? Pureza, limpeza, beleza, impurezas, sujeiras, feiuras. O corpo completo que, no mais das vezes, atrai-nos. O corpo incompleto, de algum modo, que, no mais das vezes, repudiamos. Os corpos desnormatizados, diversos, que se propõem “outros” que nos causam pulsão, repulsão, MEDO.   No corpo, seus desenhos, seus tornos e contornos, sua força, sua fragilidade sempre no enfrentamento do e com o mundo. Formas de ser e existir individualmente, formas de ser e existir coletivamente. O corpo familiar, o corpo estranho, meu corpo, minha pele, meu rosto, minha voz, tudo em mim é familiar. O resto, /.../o que não está em mim, refere-se a um corpo estranho/.../. Existem então os corpos estranhos porque não são o meu corpo, os corpos estrangeiros porque são de outros lugares, os corpos estranhos porque são bizarros (Milon, 2012, pp. 271-274).

Já desde algum tempo sabe-se que o corpo, ou sua designação – sua corporeidade, seu modo químico e físico de ser e estar –, traduz de imediato um fato do imaginário social. De uma sociedade para a outra, a caracterização da relação do homem com o corpo e a definição dos constituintes da carne do indivíduo são dados culturais cuja variabilidade é infinita (LE BRETON, 2012, p. 30). Desse modo, estabelece-se que no fundamento de qualquer prática social, como mediador privilegiado e pivô da presença humana, o corpo está no cruzamento de todas as instâncias da cultura, ponto de atribuição por excelência do campo simbólico (Le Breton, 2012, p. 31). Interessa muito aqui, esta noção de que o corpo não existe em estado natural, sempre está compreendido na trama social de sentidos, mesmo em suas manifestações aparentes de insurreição, quando provisoriamente uma ruptura se instala na transparência da relação física com o mundo /.../ (ibidem, p. 32).  Então, acordados (ou convencidos?) de que o corpo é uma convenção-definição-conceituação sociocultural – inclusive naquilo que se pode dizer que é “em sua natureza” –, devemos aqui estar atentos ao seu processo de “trânsito” em e para os percalços da arte. Do corpo para a arte, dos corpos nas artes. Propomos a atenção aos corpos tecidos, tramados, nas narrativas, na literatura. Corpo-texto.

Toda arte, antes de ser arte precisa ser, deve ser, uma convenção de ficção, de ficcionalidade, fabulação, imaginação.  Entretanto, nos termos aqui postos, toda “realidade” está em direto tom com a ficcionalidade e vice-versa. Narrativa-corpo-arte-língua-ficção. Não há “pureza” nem em uma nem em outra. Realidade e arte compõem-se basicamente nas subjetividades, nas impressões, que, por sua vez, compõem-se de padrões e convenções socioculturais. Daí que as percepções, sensações, funções, interpretações e representações do corpo são variáveis e múltiplas conformes variabilidade e multiplicidade das sociedades e culturas. Para a arte é possível dizer, de certo modo, o mesmo. O fundamental aqui é notar que sociedades e culturas nessa engrenagem também definem o “aceitável” e o “inaceitável” para o ser e estar dos corpos e das artes. O que nossa sociedade e cultura cultua do corpo e no corpo pode ser o que outras sociedades e culturas abominem. E tanto no repertório do “admissível” quanto no do “inadmissível” corporal, as dissidências se postam, alargam e diluem as fronteiras. Tensões entre o erótico e o pornô; entre o desejo e a repulsa; entre o prazer e a dor; entre o sadismo e o masoquismo; entre o constrangimento e o riso; entre o normativo-padronizado-imutável e o diluído, performático, distendido, revisto, inquieto, em trânsito, disruptivo.

O significado de Veredas, remete a “caminho estreito”, sendas, azinhagas. Veredas são os caminhos que por vezes evitamos, pois incluem trilhas estreitas, passagens alternativas de difícil acesso. Desse modo, o título de nossa revista é motivador para trabalhar o corpo e suas transformações, trafegando por vezes por caminhos de difícil acesso, desafiadores de nossa energia e coragem.  Assim como o corpo humano é uma estrutura complexa, constituída por trilhões de células, a noção de corpo aqui apresentada, revela-se igualmente complexa e, ao mesmo tempo, desafiadora da criatividade de nossos colaboradores, que vêm na literatura múltiplas possibilidades de conviver, narrar, criar e experienciar novas formas de compreender o mundo, através não só do grande sertão, mas também através de suas veredas, ou seja, não somente pela estrada real e iluminada, mas pelos caminhos árduos, alternativos e tortuosos, ou seja, pelas veredas.

Assim, o Número 41 da Revista Veredas, 2024.02, convida a todos, todas e todos os gêneros para comporem conosco estas Veredas pondo em questão as relações do corpo, da corporeidade, com as múltiplas formas de vê-lo, senti-lo, percebê-lo e interpretá-lo, narrá-lo e lê-lo – nas dimensões e limites do estético, do lúdico, do cognitivo, do catártico e do normativo aos limites do transformado – nas narrativas atuais das culturas e literaturas lusófonas.

Referências:

- LE BRETON, David. A Sociologia do Corpo. Trad. Sonia Fuhrmann. 6ª.ed. – Petrópolis: Vozes, 2012.  

- MILON, Alain. Corpo Estranho/Estranho e Familiar. IN: MARZANO Michaela. Dicionário do Corpo. Trad. Lúcia Pereira de Souza...[at al.]. São Paulo: Edições Loyola, 2012. p. 1090.